21 outubro 2017

A primeira pergunta antes ou depois da tragédia ( I )

Com e depois dos incêndios fica a cortina de fumo, que tolda o pensamento e impede de ver claro. Para além da cortina de fumo adensa-se uma a cortina que é a que muitos atores e responsáveis, cada um à sua maneira, espalham, propositadamente ou não, para que o pensamento cidadão não se desenvolva em direção à ação responsável.
Não é a primeira vez que aqui abordo o tema da floresta e dos incêndios (ver aqui), mas a gravidade assumida pela perda de vidas humanas e de bens materiais, nos últimos meses, justifica que volte ao assunto. Parece que, hoje, já ninguém tem dúvidas de que o fogo tem a origem imediata em causas naturais ou nos incendiários (apoucados mentais, ou não). Contudo, a sua origem mais profunda está na floresta que temos e na forma como se encontra estruturada.


Reestruturar a floresta
Se assim é, então, para minimizar os efeitos daquelas origens há que começar a reestruturar a floresta. Tem-se falado muito da reforma da floresta, mas o conteúdo do reestruturar, de que hoje já não se poder prescindir, exige um compromisso durável, no tempo e no espaço, do Estado, dos proprietários e dos cidadãos, sejam ou não proprietários, que o termo “reforma” não abarca.
Não são poucos os que argumentam que a tarefa de ter uma outra floresta é de uma extrema complexidade. E têm razão, mas é indispensável ver com clareza no que consiste essa complexidade. Só pode haver solução para um problema complexo se se for capaz de o decompor e hierarquizar as suas diferentes componentes. O Relatório da Comissão Técnica Independente constitui para isso um excelente contributo.
Feita a decomposição e hierarquizadas as suas diferentes componentes, tem que se ser capaz de começar por colocar questões simples e que todos possam compreender, com vista a que na sua resolução também sejam parte. Sabemos que quem procura excluir tem como boa estratégia espalhar a não compreensão.


Um exercício simples: o dos vigias
Faça-se um exercício simples. Todos estamos estarrecidos com a perda de vidas humanas, com a extensão das áreas ardidas e com a velocidade da sua propagação do fogo. Qualquer que tenha sido a sua causa, vale a pena perguntarmo-nos, porque é que, uma vez feita a ignição, a propagação do fogo não se extingue ao fim de 300 metros.
Se existem vigias estrategicamente colocados, de modo a poderem observar todo o território, então deveriam ter visto as ignições, ter dado os alertas e deveria ter-se verificado uma intervenção atempada. Dir-se-á, tudo isso é verdade, mas era preciso que lá estivessem os vigias, mas o Estado e proprietários não têm capacidade financeira para tal, suportando a correspondente despesa. Será verdade?

As faixas de contenção
Se a ação de vigilância não cumpriu o seu papel, certamente que, uma vez o fogo começou a fazer o seu caminho, as faixas de contenção, deveriam ter parado o fogo, porque é para isso que elas lá estão. A verdade é que não estão lá e quando estão, encontram-se de tal modo distanciadas que o fogo já ganhou tal força que nada o pode deter. Para além disso era preciso que estivessem limpas!
E porque é que não estão lá as faixas de contenção? Dizer faixas de contenção, quer dizer terreno que não está arborizado. Ora, isso significa que o dono do terreno onde está a faixa não vai daí tirar qualquer rendimento. Além disso, convém ter presente que em área de minifúndio florestal uma faixa de 50 metros de largura pode, só por si, comer mais do que a área de terreno possuída por um certo proprietário. Então pergunta-se: se a existência de uma faixa de contenção é um benefício para todos os proprietários, porque é que há-de ser apenas um a suportar os custos dos benefícios que são de todos?
Então, quer dizer que o problema não tem solução? Tem, mas é preciso que sejam criados mecanismos que tenham como consequência que todos aqueles que recebem os benefícios também possam suporta os custos. Isto exige mobilização de proprietários que é difícil em área de minifúndio e não existindo, terá que ser o Estado a provocar essa mobilização, avançando os correspondentes financiamentos, fazendo-se, depois, ressarcir em tempo adequado. Será que o Estado não tem capacidade para tal? Tem.
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As vias de acesso
Se as faixas de contenção não funcionaram talvez pudessem ter dado uma boa resposta as vias de acesso e as forças de combate pudessem chegar ao fogo com rapidez e fazer-lhe frente de forma eficaz. Comentar-se-á: Isso é bonito de dizer, mas para que funcionasse era preciso que existissem as vias de acesso adequadas, o que só aconteceria se todos os proprietários disso tomassem iniciativa, por que não basta que a tomem apenas uma parte, porque nesse caso a via chega a um certo ponto e fica interrompida. E o Estado, perante esta descoordenação não pode e deve fazer nada? Pode.

Os reservatórios de água
Vamos admitir que existem as vias, mas que, quando chega ao local quem vai combater o incêndio, não encontra reservatórios de água indispensáveis para que se faça o combate? Dir-se-á, porque é que não existem? Simplesmente, porque o local onde deveriam existir pertence a um certo proprietários e vai beneficiar todos os outros e o primeiro não quer tomar os custos do que é benefício dos outros. Por isso os reservatórios não foram construídos. E o Estado não poderia ter algum papel na construção desses reservatórios? Pode e deve. Não tem dinheiro? Tem.

As árvores bombeiro
Mas há mais. O papel das faixas de contenção deve ser complementado pela existência de manchas das designadas árvores bombeiro e estas também não estavam no local em que deveriam estar. E porquê? Porque as árvores bombeiro são árvores de crescimento lento de que se não pode retirar rendimento imediato e o proprietário do terreno em que devem ser plantadas dirá: porque é que hei-de ser eu a ter um rendimento menor quando isto é para benefício de todos. Uma vez mais há razão para a intervenção do Estado.
(ler a continuação no post  abaixo)

A primeira pergunta, antes ou depois da tragédia ( I I )

A composição da floresta
Não temos ouvido falar de outra coisa que não seja da culpabilidade das manchas de eucalipto e de pinheiro, na rapidez da propagação do fogo e nas projeções a grande distância. Se é assim e queremos que tal não continue a acontecer não parece que não haja solução. Haverá que moderar as plantações de uns e outros, estudando, em cada área, qual é a distribuição destes com árvores (folhosas) mais resistentes à propagação do fogo. Pois é, cá temos de novo a questão das árvores de crescimento lento e da realização de rendimentos a longo prazo. A grande maioria dirá que a longo prazo estaremos todos mortos? Perante isto nada pode ser feito? Pode, mas mais uma vez o Estado tem que ser chamado ao palco. Para fazer o quê?
O exemplo das celuloses
O exemplo do que fazem as celuloses talvez pudesse servir de inspiração, não no que fazem mal, mas no que fazem bem. As celuloses fazem mal a plantação de grandes áreas de eucalipto, mas foram capazes e encontrar um modelo em que tomam de aluguer os terenos dos proprietários (que continuam a ser deles) pagando-lhes periodicamente uma renda, até à data de devolução dos terrenos (infelizmente os terrenos quando são devolvidos vêm de tal forma exauridos que os proprietários, durante longo tempo, pouco podem fazer com eles).
A inspiração deveria servir para quê? Deveria servir para que o Estado pudesse desenhar um modelo de distribuição de rendas pelos proprietários, de tal modo que, nos seus terrenos, pudessem ser plantadas as espécies que dificultam a propagação do fogo e, simultaneamente os proprietários pudessem obter rendimentos equivalentes aos que obteriam pela plantação das espécies de crescimento rápido. O Estado não pode fazer isto, porque não tem dinheiro? Tem, há é que o distribuir de modo diferente do que tem vindo a ser feito, nas várias regiões do país e entre combate e prevenção. Quanto mais se prevenir, menos combate será necessário, embora se deva gerir convenientemente as fases de transição entre o fogo que ainda existe e a nova floresta que apenas começa a crescer.
A limpeza das matas
Não há tema que tenha sido mais badalado que o da limpeza das matas. Infelizmente sem quaisquer resultados e com isso não nos deveríamos surpreender. Pouco importa dizer que antes a limpeza era feita e que deveria continuar a ser feita, obrigando os proprietários a serem disso responsáveis.  Quem o faz parece ignorar que antes a limpeza era feita, porque a limpeza produzia benefícios só por si: os matos e outros detritos obtidos com a limpeza serviam para atapetar, caminhos, estábulos dos animais e quinteiros.
Hoje é um custo absoluto, porque dos detritos não se retira qualquer proveito imediato e nem sequer as faladas centrais de biomassa se encontram acessíveis para os poderem receber. Dir-se-á, mas apesar de tudo, a limpeza diminui o risco de incêndio e, portanto, a receita obtida com a venda das árvores permite recuperar os custos anteriormente suportados. Não é verdade, porque em espaço de minifúndio, a despesa rapidamente pode superar a despesa.
Para além disso, que importa que eu faça a limpeza se o vizinho do lado a não faz. Quando se desencadeia o fogo se o vizinho não tem o tereno limpo, as minhas árvores vão arder, quer eu tenha o terreno limpo, quer não tenha.
Não há volta a dar-lhe? Há. Torna-se necessário promover um sistema de limpeza coletiva, de que o Estado não pode estar alheado. Mais despesa para o Estado? Com certeza, mas se nada vai ser feito, vem o fogo e a despesa aparece com o combate.
A árvores em redor das casas
Finalmente as matas em redor das casas. Claro que é agradável possuir uma casa rodeada pela frescura das sombras e do verde. Só que, como se tem visto, essas matas não estão imunes aos incêndios que, se acontecem, vão provocar prejuízos nas outras casas em redor e nas matas adjacentes. Que fazer?
A moldura legal até já existe, mas talvez não tenha sido desenhada da melhor forma. A obrigação do abate de árvores a distância inferior das casas parece uma medida de bom senso, mas nem sempre assim é. Suponhamos que alguém foi construir uma casa num terreno adjacente aos das árvores e fê-lo a uma distância inferior a 30 metros dessas árvores. É o proprietário das árvores que deve proceder, sem indeminização, ao seu abate, ou são as autoridades municipais que não deveriam ter autorizado a construção naquele local?
A proibição da existência de árvores em distância inferior à que tenho vindo a referir (pinheiros e eucaliptos), não significa que essa proibição abrangesse outro tipo de árvores, por ex., as folhosas: castanheiros, tílias, plátanos, etc. Para além disso e imediatamente, o que deveria ser de obrigação estrita era a limpeza dos terrenos próximos das casas, quer lá estivessem as árvores recomendadas, quer não.
Naturalmente que se percebe, do que foi anunciado, que se tratou, apenas, de objetivos a atingir. Muito trabalho falta ainda fazer para, em cada caso, encontrar os instrumentos que permitam que os objetivos sejam cumpridos, com celeridade, eficiência e eficácia.
Finalizando
Do que fica dito surge como imprescindível o envolvimento do Estado (não necessariamente o Estado Central) na gestão da floresta. É um problema clássico de gestão de externalidades, que os economistas bem conhecem e que atrás ficou demonstrado existirem
Todos sabemos que o Governo vai decidir, hoje, medidas que têm sido pré-anunciadas, como importantes para o combate aos fogos e para a gestão das florestas. Aguardemos que possam ir no bom sentido e sejam suficientemente relevantes. O que até aqui foi apresentado como “a reforma da floresta” é um começo de reforma, mas reforma pouco. As medidas que ela contém são importantes, mas não é, certamente, por aí que são vão começar a ver os resultados da prevenção.
Creio que a continuarmos pelo caminho que até agora tem sido indicado, tem toda a razão o Sr. Primeiro Ministro quando afirmou: “seguramente situações como as vividas hoje vão repetir-se”. Certamente que poderia ter encontrado uma forma menos desajeitada de o dizer.
 

20 outubro 2017

Tudo o que sabemos acerca do neoliberalismo está errado

É este o título de um artigo de William Mitchell e Thomas Fazi, hoje publicado no Social Europe.
 
Os autores demonstram que, tanto os que defendem o neoliberalismo como os que o criticam, sustentam as suas teses com base em argumentos que não têm evidência empírica. Os estados não têm diminuido o seu peso nas respectivas economias nacionais, como se verifica pela análise da evolução da despesa pública no conjunto dos países da OCDE.
 
Segundo os Autores: o capital permanece tão dependente do Estado, hoje, como no keynesianismo, para policiar as classes trabalhadoras, salvar empresas que de outro modo entrariam em falência, abrir mercados externos, etc.
 
E acrescentam: O processo de neoliberalização deu origem a uma extensiva e permanente intervenção do Estado, incluindo: a liberalização dos mercados de mercadorias e de capital; a privatização de  recursos e de serviços sociais; a desregulação dos negócios e dos mercados de capital, em particular; a redução dos direitos dos trabalhadores (designadamente o direito de convenção colectiva); a repressão do activismo laboral, o abaixamento dos impostos sobre a riqueza e sobre o capital à custa da classe média e dos trabalhadores; o afrouxamento dos programas sociais; etc
 
O que está em causa não é, pois, haver mais ou menos Estado, mas a sua maior ou menor politização em favor dos cidadãos e do seu bem-estar.
 
O que se diz dos estados nacionais aplica-se à União Europeia e às respectivas instâncias de governação. 

19 outubro 2017

Um final feliz para a venda do Novo Banco?



No jornal Público de hoje vem anunciada a conclusão do “processo de venda aberto, transparente e concorrencial” do Novo Banco.

Depois de um longo percurso com múltiplas dificuldades e que tão pesado se revelou pelos encargos financeiros incorridos, a notícia parecia tranquilizadora.

De facto, infelizmente, está longe de o ser, persistindo um horizonte de riscos que conviria desocultar, para tranquilidade da opinião pública, se for possível demonstrar que eles não têm qualquer fundamento.

O controlo de capital (75%) passou para o Fundo Lone Star, tendo sido respeitadas as exigências do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia.

O Fundo de Resolução, que detém 25% do capital, “não nomeará nenhum representante para os órgãos sociais da instituição, quer sejam executivos ou não executivos”, por imposição da direcção Geral da Concorrência Europeia.

Por outro lado, lemos na Resolução do Conselho de Ministros nº 15- A/2017 de 2 de Outubro, que o ”Estado disponibilizará ao Fundo de Resolução os meios financeiros se e quando se afigurar necessário, para satisfação de obrigações contratuais que venham eventualmente a decorrer da venda de 75% do capital social do Novo Banco”. Ajudas de Estado estas (a um banco detido maioritariamente por privados) que Bruxelas já aprovou.

Como compatibilizar este compromisso com aquele que, em Março, o governo assumiu publicamente, de que a venda do Banco não teria impacto directo ou indirecto nas contas públicas, nem novos encargos para os contribuintes?

E quais os limites para as ajudas de Estado? O cidadão comum precisa de ser informado com clareza acerca do risco da operação em causa, pois parece que pode vir a ser chamado, num futuro que talvez não seja muito distante, a socorrer, mais uma vez, um Banco em dificuldades.

Acresce que, como é sabido, qualquer fundo de investimento não tem como objectivo manter um compromisso de longo prazo, antes procura a realização rápida de resultados financeiros.

Como compatibilizar este objectivo com o apoio ao investimento do sector empresarial não financeiro?

16 outubro 2017

A “institucionalização da Troïka”?

A expressão vem de um dos deputados do “não-partido” italiano 5 estrelas, a propósito de um projecto de lei que a Comissão Europeia (CE) agendou para ser discutido – e, muito provavelmente, aprovado – pelo Parlamento Europeu (PE) no próximo dia 6 de Dezembro. Aquela expressão, bem como a sua origem, não nos servem senão de pretexto para chamar a atenção para um importante artigo sobre o Tratado Orçamental (TO) que o economista John Weeks publica hoje na Social Europe e que pode ler-se na íntegra aqui.

Ao contrário dos dois tratados fundamentais da União Europeia, o Tratado Orçamental não reuniu o consenso de todos os Estados Membros (EEMM) e, como tal, não adquiriu força de lei. É natural que assim tenha sido, dada a rigidez fiscal e orçamental que o TO impõe às políticas macroeconómicas dos diversos EEM, designadamente em termos do cumprimento do défice público. De tal forma que a Itália já referiu que, a ser adoptado pelo PE, não o cumprirá. Pretende-se então agora, invocando o indispensável aprofundamento da União, tornar mais claro, e rígido, o célebre Artigo 3º do Tratado de Maastricht, ao abrigo do qual os défices públicos não serão permitidos senão em situações excepcionais altamente restritivas.

Como refere J. Weeks, a não unanimidade daquele Tratado Orçamental e, em consequência, a possibilidade do seu não cumprimento, tem permitido uma certa flexibilidade das políticas públicas, de grande importância na recuperação das economias de Portugal e da Espanha. No nosso caso, tem-nos proporcionado um clima económico de relativo alívio pós-austeridade e, em consequência, uma fase de crescimento significativo da economia. Ao contrário do que foi permitido à Grécia, e do que esta tem sabido ou conseguido utilizar.   

A composição do PE, onde predominam neste momento os partidos de centro-direita, bem como uma audição prévia aos parlamentares a este respeito, faz admitir a grande probabilidade de a lei ser aprovada. E, como tal, tornar-se vinculativa para todos os EEMM.

A acompanhar com atenção…


12 outubro 2017

O Indicador Europeu de Igualdade de Género

O Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE, na sigla inglesa) acaba de apresentar o indicador compósito anual que mede, para os diferentes Estados Membros (EM), a situação relativa de mulheres e homens face a oito importantes domínios da vida social e económica. O Indicador de Igualdade de Género, assim se chama, mede as diferenças de género nos domínios do trabalho, rendimento, conhecimento, usos do tempo, exercício do poder e saúde e monitoriza ainda os progressos verificados quanto a violência de género e desigualdade múltipla (http://eige.europa.eu/gender-equality-index).

Como sucede com todos os indicadores compósitos, também a este se dirigem várias críticas. Antes de mais, a da possibilidade efectiva de medir a (des)igualdade de género, tema de tão grande complexidade dadas as múltiplas dimensões envolvidas; algumas das quais, estreitamente associadas a domínios como os da Psicologia ou da Cultura, prestando-se, efectivamente, muito pouco à quantificação. Por outro lado, coloca-se a questão de saber que peso atribuir aos diferentes subdomínios envolvidos, 31 ao todo, se o mesmo ou, pelo contrário, ponderadores de diferente magnitude. Há quem critique também a possibilidade de estabelecer uma medida comum para as realidades tão diferentes dos 28 EM em presença.


Cientes de toda esta argumentação, consideramos que mesmo assim é importante ter em conta este Indicador e o correspondente relatório já que em termos das tendências médias ele se afigura muito significativo. O panorama da União Europeia (UE) neste domínio é um clássico: muito maior igualdade de género nos países nórdicos, seguindo-se a europa central e, por fim, os estados bálticos, países do leste europeu e… Portugal:




Fonte: EIGE (2017)                                                              


Apesar dos progressos verificados no nosso País quanto a este Indicador, o certo é que temos ainda um grande caminho a percorrer. Com um valor de 0,56, contra 0,662 na média da UE (e 0,83 na Suécia), relativamente a 2015, é nos domínios do exercício do poder, dos usos do tempo e do conhecimento que se verificam entre nós as mais acentuadas diferenças de género: nas assembleias regionais e nos gabinetes ministeriais o peso relativo dos homens é bastante superior a 70% e mesmo na Assembleia da República se está ainda bastante longe da paridade já que só cerca de 33% dos deputados eram mulheres, em 2015. 

O uso do tempo mostra-se igualmente bastante mais desfavorável às mulheres, sobretudo no que tem a ver com o apoio a crianças, idosos e incapacitados e, muito especialmente, no que respeita às chamadas tarefas domésticas[1]. Quanto aos dois sub indicadores relativos ao conhecimento – as percentagens de diplomados pelo ensino superior e de população com 15 ou mais anos em programas de educação formal ou não formal – as posições relativas apresentam-se simétricas, com o primeiro indicador a revelar uma superioridade relativa das mulheres e o inverso no segundo.

Mas mesmo nos domínios em que o Indicador revela níveis mais elevados de paridade, os da saúde e do trabalho, a posição relativa do nosso País se destaca face à média da EU. A respeito daquele segundo domínio, cujos sub indicadores são a taxa de emprego em equivalente a tempo inteiro (ETI) e a expectativa quanto à duração da vida activa, constatam-se resultados dignos de nota:
- em ambos os casos, e para os dois sexos, os valores percentuais em Portugal são superiores aos da média da EU;
-o gap de género é mais elevado no primeiro sub indicador, cerca de 10 p.p. a mais nos homens do que nas mulheres, entre nós, e aproximadamente 17% no mesmo sentido na média da EU;
- a expectativa de duração da vida activa é superior em Portugal – mais 3% de mulheres e mais 0,5% de homens com mais de 15 anos prevê trabalhar durante toda a sua vida activa, em Portugal, face à expectativa correspondente na EU.


Como pode ver-se, são múltiplas as direcções e longo ainda o caminho a percorrer pelas políticas públicas e, especialmente, pelos homens e pelas mulheres no sentido da paridade de género.




[1] Para um maior aprofundamento deste aspecto, ver  H. Perista e outros (2016), Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, CESIS & CITE, Lisboa, disponível em http://www.cesis.org/admin/modulo_news/ficheiros_noticias/20170201142706-1inut_livro_digital_final.pdf









10 outubro 2017

O “comportamento” do prémio Nobel da Economia

 
Foi ontem (09-10-17) conhecido o nome do vencedor do Prémio Nobel da Economia para 2017. Trata-se de Richard Thaler, prestigioso professor de economia da “Chicago Booth School of Business”. Ainda ontem e durante o dia de hoje os media foram abundantes na publicação de comentários sobre o conteúdo dos seus trabalhos e sobre a personalidade do vencedor.
Infelizmente, os comentários raramente são capazes de sublinhar em que consiste a sua verdadeira contribuição para o avanço da ciência económica e, mais importante do que isso, para a demonstração de que a economia só se torna verdadeira ciência, na medida em que se aproximar da vida real das pessoas, nomeadamente, através da endogeneização do comportamento dessas pessoas nas explicações sobre o funcionamento da economia.
Tem-se vindo a sublinhar que a mais importante contribuição de Thaler, na sua economia dos comportamentos ou economia comportamental, tem sido a relevância que atribui às “decisões irracionais”. Ora, como seres racionais que somos não podemos deixar de nos interrogarmos como é que um professor brilhante, capaz de ganhar um prémio Nobel quer fazer de nós seres irracionais. Há qualquer coisa que não bate certo!
Vamos lá procurar saber onde é que está a marosca, porque a há. De fato as decisões que são apelidadas de irracionais, são perfeitamente racionais. Vejamos porquê.
Não é a primeira vez que aqui se sublinha a irracionalidade da chamada economia racional. Ao pretender fazer da economia uma ciência semelhante às ciências exatas, que têm como pressuposto que as mesmas causas produzem, sempre, os mesmos efeitos, um conjunto vasto de economistas (ditos liberais) criou uma maquete através da qual pretendiam e pretendem ver representado o funcionamento da economia. Segundo essa maquete, na economia existem, como agentes, produtores e consumidores, que têm comportamentos tipificados: os consumidores ao consumirem fazem-no maximizando as  suas utilidades; os produtores só encontram razão para produzirem se por essa via maximizarem os seus lucros. Os consumidores relacionam-se com os produtores, através do mercado e no comportamento do mercado não são admissíveis quaisquer outros agentes que não sejam os consumidores e produtores. Do Estado não deve existir qualquer sinal, porque se existir ele apenas pode ter como consequência a diminuição da satisfação dos agentes.
Ao maximizarem as suas utilidades e os seus lucros, consumidores e produtores, adotam comportamentos racionais. Quem assim não fizer não é um ser racional, não é um homo economicus.
É verdade que a maquete simula bem o comportamento dos agentes em determinadas, raras, situações. Mas é muito mais verdade que a maioria dos agentes se encontra, em muitas circunstâncias, perante situações em que a sua motivação não é, ou não é só, a utilidade e o lucro. Isto é, não se comportam como desejaria a maquete. São seres irracionais!
É aqui que Thaler vem colocar a verdadeira questão. Quem é que deve ser considerado como irracional? Quem não se comporta segundo as regras da maquete, que foram consideradas como sendo racionais, ou quem segue modelos de decisão que, embora possam ter em conta as regras do mercado as pondera com outras considerações que têm em conta as emoções, o cumprimento de regras de justiça, as intuições, o conhecimento adquirido através de experiências e decisões do passado, etc.
Naturalmente que tem que ser considerado possuir comportamentos irracionais, quem abandona os ditames da sua consciência e da sua história para dizer que nos devemos comportar segundo as regras da maquete. A racionalidade está na valorização do comportamento humano como ser inteligente, emocional, dotado de memória e que vive num mundo em que os outros seres humanos fazem parte das suas relações, que podem ser umas vezes de caráter competitivo, outras vezes de caráter cooperativo ou solidário.
É racional quem é dito irracional; é irracional quem antes subiu aos altares de uma pretensa racionalidade.
Por isso são tão importantes os contributos com que Richard Thaler nos tem beneficiado.
Ao tomar conhecimento da atribuição do prémio Nobel, perguntou-lhe um jornalista: e o Sr. o que vai fazer com os cerca de um milhão de euros que agora lhe foram atribuídos? A sua resposta foi de mestre e saiu de rajada: naturalmente, vou tomar decisões irracionais!
São irracionais, porque a maioria das suas decisões vão, certamente, contrariar as decisões racionais da maquete.